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De tempos em tempos, a cena rock de uma cidade é acometida por espasmos de criatividade e identidade coletiva. Em Porto Alegre, o último grande espasmo aconteceu por volta de 2002, quando o efeito Strokes começou a bater forte na mente da galera que tinha entre 15 e 18 anos. Surgiu então uma movimentação forjada sobre o novo jeito de tocar e pensar rock (internet, mp3, instantaneidade, influência dos 80, de Nova Iorque e dos mods). Bandas e festas antenadas com o que estava rolando não demoraram a aparecer. Read more on Last.fm
De tempos em tempos, a cena rock de uma cidade é acometida por espasmos de criatividade e identidade coletiva. Em Porto Alegre, o último grande espasmo aconteceu por volta de 2002, quando o efeito Strokes começou a bater forte na mente da galera que tinha entre 15 e 18 anos. Surgiu então uma movimentação forjada sobre o novo jeito de tocar e pensar rock (internet, mp3, instantaneidade, influência dos 80, de Nova Iorque e dos mods). Bandas e festas antenadas com o que estava rolando não demoraram a aparecer. A Pública é um dos melhores frutos dessa geração.

Enquanto muitos se perderam no caminho, a Pública (como a Superguidis, da mesma nascente) conseguiu o mais difícil: criou uma identidade e um público próprios a partir de um contexto não só local, mas mundial. Seu primeiro disco, Polaris, é uma das melhores cartas de intenções do rock gaúcho dos últimos tempos, uma carta que já vem com promessas cumpridas, com itens "a fazer" já riscados. Polaris é também um álbum de sítio e de dedicação: a banda se isolou longe da capital para as gravações, o que provavelmente contribui para a coesão do som. O único elemento adicionado fora do cenário campeiro foi o piano de calda Steinway, gravado no Teatro da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Sentiu qual é o nível de comprometimento da parada? O segredo da Pública para se sobressair dos incontáveis mods & strokes que os rodeiam foi buscar elementos diferenciais na vida urbana de Porto Alegre e no Britpop.

O portoalegrismo não é tão explícito, mas sua atmosfera permeia melodias e letras. A influência inglesa é parte importante da liga musical e vem tanto do primeiro disco do Stone Roses, quanto dos Beatles, do Supergrass e das melhores coisas do Oasis. Mas isso é só a ponta do iceberg: quanto mais você ouve o disco, mais mergulha num oceano de referências que pode levar ao Television, The Cure, Smiths, David Bowie, rock brasileiro e gaúcho dos anos 80 e por aí vai. Uma aventura divertida e cheia de pérolas escondidas para qualquer fã de música. Fora isso tudo, Polaris tem um indefectível frescor juvenil universal, uma energia autêntica de corações ainda não contaminada por cinismo e sarcasmo, esses dois venenos que fizeram os anos 90 interessantes, mas também amargos demais.

Da mesma forma, os shows da banda fazem um contraponto ao rock da época do Nirvana, quando o público era mais escasso e o underground pouco estruturado. Hoje, a Pública toca para uma audiência considerável em número e em dedicação à banda: os garotos e garotas fiéis que lotam os shows têm as letras na ponta da língua e deixam isso claro a plenos pulmões. Dessa maneira, a Pública monta as bases para uma jornada longa e profunda, com potencial não só pra atingir público em quantidade (o que não depende só deles, mas da gravadora, do contexto atual, de carma), mas também para empurrar as próprias fronteiras musicais. O rock (gaúcho, brasileiro, mundial) agradece. Gustavo “Mini” Bittencourt – vocalista e guitarrista do Walverdes Read more on Last.fm. User-contributed text is available under the Creative Commons By-SA License; additional terms may apply..

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